iPadAlgum tempo atrás, alguém perguntou ao Steve Jobs se a Apple iria lançar algum computador de baixo custo, como os netbooks, para uso menos profissional que os MacBooks e MacBooks Pro, que são máquinas muito avançadas e, portanto, mais caras. Jobs respondeu algo como: Apple não lançaria nenhum produto que não fosse BOM (ou seja, nada que que fosse ruim em algum aspecto, seja pequeno demais, seja lento demais, seja limitado demais ou difícil de usar, etc).

Na época, o iPad já deveria estar em produção, pois Jobs disse no último keynote que um ano atrás ele pediu que sua equipe desenvolvesse o iWork para o iPad, logo, o iPad já estava sendo desenvolvido. É claro que Jobs não iria entregar seus segredos e arriscar uma queda nas vendas dos seus produtos atuais, causada pela expectativa de um produto novo. Não até a hora certa chegar. Desde então, eu imaginei que ele estaria preparando alguma surpresa (sempre está), que seria anunciada no momento em que estivesse pronta, e quando o mercado estivesse precisando de alguma novidade. Jobs calou-se sobre este assunto desde então, e os rumores foram surgindo e crescendo com o passar do tempo até a última quarta-feira.

O produto tablet já existe faz tempo, lembram quando a Microsoft lançou software para uso em tela sensível ao toque e ficou tentando vender esta ideia pra todo mundo há alguns anos? Quem comprou a ideia e passou a fabricar algo assim foi a HP (entre outros), são aqueles que parecem um notebook normal, mas sua tela gira e fecha sobre o teclado e ele vira um “caderno”. Estes produtos são pouco práticos, apresentam defeitos com frequência (por terem partes móveis), e são enormes e pesadíssimos se comparados as tablets ultraportáteis apresentadas na CES 2010 no início de janeiro.

Quer um notebook muito fino e leve e quer um Mac? Seu notebook é o MacBook Air. É realmente fino e tem teclado e tela feitos para seres humanos adultos. No início eram muito simples e eu não o recomendaria para ser o seu único computador, mas os modelos mais atuais de MacBook Air são muito potentes, e dependendo de qual for sua utilização, ele pode ser o rei da casa, porque roda OS X, é livre de vírus, e faz de tudo.

Indo contra a maré da corrida tecnológica por produtos cada vez mais avançados e caros, uma fatia do mercado consumidor simplesmente queria computadores mais simples e mais baratos, pois estas pessoas “não precisam de tudo isso”, só querem acessar internet, ler emails, e escrever documentos.

Os fabricantes de PCs se rendem à demanda e sem muita resistência, tomam uma providência buscando o menor esforço… Surgem os netbooks, que se proliferam como Gremlins nas lojas e nas casas das pessoas. É um computador em miniatura. Só isso. E o pior é que ele quer ser um computador grande, vem com tudo (ou quase tudo) que um notebook normal vem. Até o software.

Acontece que quem compra um computador desses leva pra casa uma série de problemas: é pequeno demais para ler textos em sua tela, é complicado até para clicar no lugar certo, e o teclado também parece ter sido feito para crianças. E embora tenha um sistema operacional “de gente grande”, não passa de um “cranky old software”, um sistema antigo e ultrapassado, cheio de falhas. E nem tente instalar algo mais moderno, não é suportado.

No final das contas, é isso que você quer? Comprar algo que já nasce obsoleto? Quem já leu o livro “Inside Steve’s Brain” (ou em português com o infeliz título A Cabeça de Steve Jobs), deve lembrar-se da seguinte passagem “If I’d asked my customers what they wanted, they’d have said a faster horse.” Se Henry Ford, quem criou o carro moderno, tivesse perguntado aos seus clientes o que eles queriam, eles teriam dito que queriam cavalos mais velozes. E quem sabe ainda hoje estivéssemos a cavalo pelas ruas. Mas alguém pensou diferente e mudou o mundo, em vez de simplesmente atender ao que as pessoas querem. Elas, muitas vezes não sabem o que querem até que alguém mostre algo novo a elas. Apple costuma fazer isso muito bem.

Na busca de inovação, a indústria de tecnologia lança os primeiros “slate computers”, um nome feio para seus tablets ultraportáteis. Mas estes ainda usam software inadequado para seu hardware. Para que você use seu dedo para interagir com a interface gráfica, esta interface deve ser própria para o uso do dedo. Não basta ter um sistema operacional comum, com sua bagagem de uso de mouse e teclado e simplesmente tirar o mouse e o teclado e colocar uma tela sensível ao toque. Simplesmente não dá certo. É um produto inacabado.

Neste cenário, e sem pressa, a Apple segue seu lema: “Quem faz software, deveria fazer seu próprio hardware” e lança o iPad, com o chip Apple A4 de 1GHz criado especificamente para atender às necessidades de processamento e para os gráficos do produto.

Não é um netbook por definição e vem para competir com os demais tablets deste tipo porque tem um bom preço e porque o software é perfeito para o hardware, é o iPhone OS, criado para se usar na ponta dos dedos. E como milhões de pessoas tem iPhone ou iPod touch, não haverá dificuldade em aprender como se usa o aparelho. Além disso ele roda muito mais rápido o iPhone OS porque o iPad já nasceu com um processador que é umas duas vezes mais rápido que seus primos menores.

A experiência de se usar um iPad será algo extremamente simples e por isso será mágico, com elevado grau de satisfação. Porque as pessoas já esperam que os produtos de informática sejam cheios de problemas e complicados, é aí que entra o porquê da escolha do sistema do iPad ser o mesmo do iPhone. Quem tiver um vai acabar convencendo pessoas próximas a comprar um também, porque usá-lo será algo difícil de esconder, e de esconder a satisfação também.

A idéia de um produto no tamanho e formato do iPad não é exatamente nova, mas acredito que logo logo o iPad fará parte do cotidiano, será algo que vai estar na casa de todos (é um exagero, eu sei, mas ele pode vir a estar na casa de todos os que tem um smartphone e um notebook pelo menos). Será mais um eletrônico de uso pessoal para se ter em casa, aquele que as pessoas terão para fazer coisas do dia-a-dia, sem que precisem usar o computador (ligar, esperar carregar, etc).

Mas ele não tem a pretensão de substituir o computador ou o smartphone, que continuarão existindo e serão utilizados talvez até mais vezes que o iPad. Mas quando você quiser ler uma revista/livro/jornal em formato eletrônico (que se tornarão muito mais comuns daqui pra frente) no sofá, ou na mesa de um café, para estudar, para jogar um game ou fazer algum outro tipo de uso que ainda será inventado, em algum momento onde o celular torta-se pequeno e o computador muito grande, aí entra o iPad.

E os netbooks? Como toda praga, continuarão a existir. A concorrência não tem nada que substitua o iPad, e sempre haverá alguém que não vai querer um iPad, ou que vai procurar algo ainda mais barato. É como os iPods. Estão aí desde 2001, batendo todos os recordes de vendas, são líderes absolutos de mercado, são os melhores MP3 players do mundo, e nem por isso a china deixa de fabricar e espalhar pelo mundo outros MP3 players (clones mal feitos de iPods ou não), e as pessoas continuam comprando-os por algum motivo. Mas as pessoas se orgulham de ter um desses? Eles são melhores?

Este texto é apenas a minha opinião, uma análise do mercado tecnológico atual, e não tem pretensão de ser uma verdade absoluta sobre nenhum assunto. E não pretendo com ele incomodar ou ofender ninguém. Se este foi seu caso, não foi intencional. Apenas puxei a conversa, agora é a sua vez. Comente.

Texto enviado pelo leitor Thiago Martins (@thiagomartins)